domingo, 13 de setembro de 2009
domingo, 9 de agosto de 2009
quinta-feira, 16 de julho de 2009
Mais um texto antigo, porém muito atual: “A morte de um amigo”
segunda-feira, 13 de julho de 2009
domingo, 12 de julho de 2009
Só um pouquinho de lirismo, ou seja, lá vem C.F.A mais uma vez...

“Que algo sempre nos falta — o que chamamos de Deus, o que chamamos de amor, saúde, dinheiro, esperança ou paz. Sentir sede faz parte. E atormenta.”
Sinto dor: estou viva.
"Que se possa sonhar, isso é o que conta."
"Deixa o vento soprar, let it be..."
”Você não vai encontrar caminho nenhum fora de você. E você sabe disso. O caminho é in, não off”
sábado, 11 de julho de 2009
sexta-feira, 10 de julho de 2009

Texto antigo: Inverno de 2008 – “Uma pedra, dentro da noite veloz”
"O essencial é invisível aos olhos."

Texto antigo: Primavera de 2008 - Caio F, ou me escuta Zezim...

Texto antigo: Primavera de 2008 - “Três tristes tigres”

Os dragões não conhecem o paraíso


Preciso de Alguém...

Meu nome é Caio F।Moro no segundo andar,mas nunca encontrei você na escadaPreciso de alguém, e é tão urgente o que digo। Perdoem excessivas, obscenas carências, pieguices, subjetivismos, mas preciso tanto e tanto. Perdoem a bandeira desfraldada, mas é assim que as coisas são-estão dentro-fora de mim: secas. Tão só nesta hora tardia - eu, patético detrito pós-moderno com resquícios de Werther e farrapos de versos de Jim Morrison, Abaporu heavy-metal -, só sei falar dessas ausências que ressecam as palmas das mãos de carícias não dadas.Preciso de alguém que tenha ouvidos para ouvir, porque são tantas histórias a contar. Que tenha boca para, porque são tantas histórias para ouvir, meu amor. E um grande silêncio desnecessário de palavras. Para ficar ao lado, cúmplice, dividindo o astral, o ritmo, a over, a libido, a percepção da terra, do ar, do fogo, da água, nesta saudável vontade insana de viver. Preciso de alguém que eu possa estender a mão devagar sobre a mesa para tocar a mão quente do outro lado e sentir uma resposta como - eu estou aqui, eu te toco também. Sou o bicho humano que habita a concha ao lado da conha que você habita, e da qual te salvo, meu amor, apenas porque te estendo a minha mão. (...)Tenho urgência de ti, meu amor. Para me salvar da lama movediça de mim mesmo. Para me tocar, para me tocar e no toque me salvar. Preciso ter certeza que inventar nosso encontro sempre foi pura intuição, não mera loucura. Ah, imenso amor desconhecido. Para não morrer de sede, preciso de você agora, antes destas palavras todas cairem no abismo dos jornais não lidos ou jogados sem piedade no lixo. Do sonho, do engano, da possível treva e também da luz, do jogo, do embuste: preciso de você para dizer eu te amo outra e outra vez. Como se fosse possível, como se fosse verdade, como se fosse ontem e amanhã.
(Caio Fernando Abreu - Crônica publicada no “Estadão” Caderno 2 de 29/07/87)Caio Fernando Abreu)
Texto antigo: Invernos de 2008 – “Adorável nordestina...”

Diga 33...não estava realmente no médico, fui trazida novamente para a realidade por uma voz simpática, quase cantada। Um profissional de RH diria:um sorriso na voz. Era um daqueles dias em que eu me sentia meio Manuel Bandeira, mas sem o talento poético. Minhas costas doíam, minha cabeça e meu peito também. O catarro grosso estava entranhando em todo meu ser. Eu tinha tido febre durante a noite, acordei suando, com o cabelo grudado na testa e um cheiro de morte. Não, eu não iria morrer ainda, pelo menos eu acreditava nisso. E também não me considero uma pessoa hipocondríaca, mas em uma dessas tentativas racionais de continuar vivendo na mais completa normalidade fui à farmácia, não há um bom especialista, mas simplesmente a antiga farmácia perto de casa. Eu moro em um país subdesenvolvido, onde saúde ainda é considerada artigo de luxo e as pessoas se automedicam, tomam chás para quase tudo e algum desses remédios que fazem propaganda na tv. O farmacêutico muito simpático fez um rombo quase irreversível na minha carteira. Não teria outro jeito, iria passar o fim de semana praticamente sem dinheiro. O que não é nenhuma novidade. Um antibiótico e um xarope, sai de lá quase confiante, como é fácil acreditar em um desconhecido que fale como quem se preocupa com a gente. Isso me faz lembrar que os maiores psicopatas do mundo parecem pessoas muito atenciosas e preocupadas com o bem estar dos outros. Saindo da farmácia eu fui para o mercado, sábado, pior que isso, primeiro sábado depois do quinto dia útil. As pessoas se amontoando, carrinhos, filas, crianças, filas, preços exorbitantes, filas, em uma verdadeira representação do inferno. Depois de quase duas horas para comprar meia dúzia de quase nada, a derradeira fila, a hora de pagar por toda aquela diversão de filas e aglomerações.Meu corpo quase desistindo e caindo derrotado pela gripe, pelos preços, por todas as filas do mundo. Foi quando no meio do meu devaneio escutei a voz daquela sergipana, que já morou em Goiás e gentilmente conversava comigo como quem me conhecesse há muito tempo. Não era alguém que queria parecer interessada ou gentil, também não era uma psicopata, mas alguém realmente interessada e gentil. Falou das vantagens de trabalhar próximo a sua casa, da suas cidades e eu falei uma ou duas palavras, esbocei um quase sorriso, paguei a compra, disse um tchau, desejei boa sorte! E resolvi escrever algo que certamente ela jamais ira ler, mas foi uma maneira de não esquecer como ainda existem boas pessoas neste mundo, que talvez não seja tão ruim...
(Inverno de 2008)
Texto antigo: (20 de Junho de 2008)
Isabela Nardoni morreu aos cinco anos de idade. Segundo as investigações que prosseguem, a menina foi atirada do sexto andar de um edifício na zona norte da São Paulo pelo próprio pai e a madrasta. A classe média, em estado de choque seletivo, mais uma vez se vestiu de branco e foi pedir paz na avenida Paulista e na praia de Ipanema.Nesta semana, quase três meses depois da morte da menina, três jovens pobres, negros, moradores da favela da Providência no Rio de Janeiro foram entregues a traficantes do morro da Mineira por oficiais do exército. Lá, foram torturados e mortos de forma bárbara, no sentido mais lato da palavra.Os moradores da comunidade onde os três garotos moravam, entraram em confronto com a polícia local. O ministro da Defesa, Nelson Jobim, pediu desculpas às famílias das vítimas como quem pede desculpas por ter quebrado um copo ou ter chegado atrasado a um encontro com subalternos. É bem provável que daqui a um ou dois meses o caso seja esquecido como já aconteceu com tantos outros. O que certamente não ocorrerá com o caso Isabella: ela se tornará um símbolo na luta contra violência, como o garoto João Hélio, morto em um assalto em 2007.É evidente que uma vida não é mais importante que outra. Pelo menos na teoria. Os meios de comunicação em massa selecionam casos como esses entre milhares que ocorrem todos os dias no Brasil. Depois divulgam “a bola da vez” e arquivam os outros. E isso se repete na memória coletiva. Alguns casos causam comoção geral na população e outros são simplesmente deixados de lado.Os perigosos supostos assassinos de Isabella Nardoni estão presos, assim como Suzane Richthofen, mas o que aconteceu com os assassinos dos garotos da Candelária? Com o caso Sandro, sobrevivente do mesmo massacre, morto no episódio que ficou conhecido como o assalto do ônibus 174? Com os policiais que mataram sem-terras em Eldorado dos Carajás? Ou com os que invadiram o Carandiru em 1992? Alguns destes casos ainda viraram roteiros para o cinema e os outros, alguém se lembra?Macbeth é tão trágico quanto Édipo e Medéia. As forças armadas têm diante da população o dever ético de protegê-la, assim como os pais perante os filhos, embora a palavra ética esteja fora de moda. Os oficiais do morro da Providência têm que ser punidos com o mesmo rigor que o casal Nardoni, pois cometeram um crime ainda mais hediondo e covarde. Não atiraram ninguém pela janela, é bem verdade. Preferiram nem mesmo sujar as mãos.
Caio Fernando Abreu, mais uma vez...
Na terra do coração passei o dia pensando - coração meu, meu coração। Pensei e pensei tanto que deixou de significar uma forma, um órgão, uma coisa। Ficou só com-cor, ação - repetido, invertido - ação, cor - sem sentido - couro, ação e não. Quis vê-lo, escapava. Batia e rebatia, escondido no peito. Então fechei os olhos, viajei. E como quem gira um caleidoscópio, vi:Meu coração é um sapo rajado, viscoso e cansado, à espera do beijo prometido capaz de transformá-lo em príncipe.Meu coração é um álbum de retratos tão antigos que suas faces mal se adivinham. Roídas de traça, amareladas de tempo, faces desfeitas, imóveis, cristalizadas em poses rígidas para o fotógrafo invisível. Este apertava os olhos quando sorria. Aquela tinha um jeito peculiar de inclinar a cabeça. Eu viro as folhas, o pó resta nos dedos, o vento sopra.Meu coração é um mendigo mais faminto da rua mais miserável.Meu coração é um ideograma desenhado a tinta lavável em papel de seda onde caiu uma gota d’água. Olhado assim, de cima, pode ser Wu Wang, a Inocência. Mas tão manchado que talvez seja Ming I, o Obscurecimento da Luz. Ou qualquer um, ou qualquer outro: indecifrável.Meu coração não tem forma, apenas som. Um noturno de Chopin (será o número 5?) em que Jim Morrison colocou uma letra falando em morte, desejo e desamparo, gravado por uma banda punk. Couro negro, prego e piano.Meu coração é um bordel gótico em cujos quartos prostituem-se ninfetas decaídas, cafetões sensuais, deusas lésbicas, anões tarados, michês baratos, centauros gays e virgens loucas de todos os sexos.Meu coração é um traço seco. Vertical, pós-moderno, coloridíssimo de neon, gravado em fundo preto. Puro artifício, definitivo.Meu coração é um entardecer de verão, numa cidadezinha à beira-mar. A brisa sopra, saiu a primeira estrela. Há moças na janela, rapazes pela praça, tules violetas sobre os montes onde o sol se p6os. A lua cheia brotou do mar. Os apaixonados suspiram. E se apaixonam ainda mais.Meu coração é um anjo de pedra de asa quebrada.Meu coração é um bar de uma única mesa, debruçado sobre a qual um único bêbado bebe um único copo de bourbon, contemplado por um único garçom. Ao fundo, Tom Waits geme um único verso arranhado. Rouco, louco.Meu coração é um sorvete colorido de todas as cores, é saboroso de todos os sabores. Quem dele provar, será feliz para sempre.Meu coração é uma sala inglesa com paredes cobertas por papel de florzinhas miúdas. Lareira acesa, poltronas fundas, macias, quadros com gramados verdes e casas pacíficas cobertas de hera. Sobre a renda branca da toalha de mesa, o chá repousa em porcelana da China. No livro aberto ao lado, alguém sublinhou um verso de Sylvia Plath: "Im too pure for you or anyone". Não há ninguém nessa sala de janelas fechadas.Meu coração é um filme noir projetado num cinema de quinta categoria. A platéia joga pipoca na tela e vaia a história cheia de clichês.Meu coração é um deserto nuclear varrido por ventos radiativos.Meu coração é um cálice de cristal puríssimo transbordante de licor de strega. Flambado, dourado. Pode-se ter visões, anunciações, pressentimentos, ver rostos e paisagens dançando nessa chama azul de ouro.Meu coração é o laboratório de um cientista louco varrido, criando sem parar Frankensteins monstruosos que sempre acabam destruindo tudo.Meu coração é uma planta carnívora morta de fome. Meu coração é uma velha carpideira portuguesa, coberta de preto, cantando um fado lento e cheia de gemidos - ai de mim! ai, ai de mim!Meu coração é um poço de mel, no centro de um jardim encantado, alimentando beija-flores que, depois de prová-lo, transformam-se magicamente em cavalos brancos alados que voam para longe, em direção à estrela Veja. Levam junto quem me ama, me levam junto também.Faquir involuntário, cascata de champanha, púrpura rosa do Cairo, sapato de sola furada, verso de Mário Quintana, vitrina vazia, navalha afiada, figo maduro, papel crepom, cão uivando pra lua, ruína, simulacro, varinha de incenso.Acesa, aceso - vasto, vivo: meu coração é teu.(Inverno /2009)
Não sou seu que está beijando...

Veja bem, quando digo eu e você e não você e mim e porque a evidente unilateralidade nunca deixou dúvida alguma.
As possibilidades são infinitas. Quando você sentou-se ao meu lado, saído do mais intimo do meu ser. Como é patético, o mais intimo do meu ser...não foi exatamente de lá que você saiu, eu nem ao menos sei se existe tal lugar em mim.
Você saiu de dentro da minha cabeça confusa e tola, sentou-se ao meu lado, bem ao meu lado.
A princípio, eu não te vi, mas quando te achei, encontrei não só a momentânea alegria, mas o terror duradouro e destrutivo. Se eu nunca mais te visse o mundo seria tranqüilo novamente, entretanto eu nunca mais encontraria a paz.
Para falar a verdade, te ver ou não, não muda mais nada. Já que sua imagem desconexa está gravada na minha retina interior. Mesmo se eu arrancasse os olhos continuaria a ver-te com as lembranças que eu não consigo conter. Umas reais – um “olá” -um “boa noite!” - um olhar atravessando minha dignidade...outras meramente fantasiosas e inventadas em noite insones e sozinhas, portanto mais preciosas...cheiros, gostos, toques...quanto ridícula pode ser uma mulher? Quanto apavorante pode ser uma cidade iluminada? Um quarto vazio? E o silêncio...
Tudo no mundo começou com um sim...

Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou.
Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho.
Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever.
(Clarice Lispector)
Acho que esse é um bom começo...
(Inverno/ 2009)









